Uma jornadada envolvente pelo universo sombrio de Samantha

O mundo dos sonhos é um terreno fértil para a construção de grandes narrativas. Uma única mente pode criar universos fabulosos em seu subconsciente. Ana Recalde conseguiu criar uma saga envolvente em Beladona, que conta a história de uma garota que desde os sete anos (a partir do ponto de partida da história) vive experiências assustadoras através dos seus sonhos.

Samantha, a protagonista dessa história, sofre com terríveis pesadelos que a levam para cenários sombrios povoados por criaturas assustadoras. Com o passar dos anos ela vai aprendendo mais sobre esse universo que a atormenta. Descobertas surpreendentes vão se revelando para nós leitores à medida que acompanhamos a personagem ao longo de sua vida. O resultado é uma aventura aterrorizante, com reviravoltas e o desenvolvimento de um universo ao mesmo tempo assustador e atraente pela riqueza de possibilidades.

O grande desafio de Samantha é compreender o que se assa em sua mente durante seus sonhos. Durante sua infância e parte da adolescência ela tem dificuldades em assimilar o terror do universo que visita todas as vezes que dorme. Tal tormento obviamente interfere em sua vida social, tornando-a uma garota isolada e depressiva, assustada a maior parte do tempo e por tais motivos rejeitada, exceto por sua família muito bem alicerçada na figura materna.

O leitor pode temer que Samantha seja mais um estereótipo da garota esquisitona, com dons sobrenaturais e aparência gótica. Ao longo da leitura vamos descobrindo uma personagem com fortes motivações para a construção de seu comportamento, o que a a afasta do clichê rapidamente. O ponto mais atraente do roteiro, é a possibilidade de descobrirmos junto com Samantha como essa realidade funciona nos sonhos e quem está por trás de tudo. A trajetória dela nos permite vivenciar todo o amadurecimento da personagem e, na condição de observadores, nos envolvermos tanto por estarmos caminhando ao lado dela, como por descobrirmos um mundo cheio de possibilidades fantásticas.

Os desenhos são um show à parte

A arte de Denis Mello é totalmente necessária para o sucesso da obra. Um exemplo de que nas obras independentes a sinergia entre roteirista e artista gera um resultado bem diferente do que vemos comumente nos quadrinhos comerciais. Não que estes últimos não produzam bons resultados, longe disso, mas quando lemos algo como Beladona, percebemos como o roteiro e a arte se complementam de forma excepcional. Os traços são belíssimos. Na sequencia dos sonhos não há divisão em quadros, temos sim uma sequencia de movimentos dos personagens através do cenário transmitindo uma forte sensação de movimento. Com traços marcantes, cada painel apresenta uma riqueza de detalhes que prende por um longo tempo a atenção do leitor mais atento.

O formato da hq é maior que o americano, as páginas são impressas em papel couchê, conferindo um acabamento mais refinado. Nos extras temos textos do Denis Mello explicando um pouco o processo de criação, e várias ilustrações de artistas convidados. É sem dúvida uma obra essencial para fãs de quadrinhos que buscam uma obra autoral de alta qualidade tanto em termos gráficos quanto no roteiro.

A sensação que tive lendo Beladona foi a melhor possível. Confesso que me surpreendi, por não estar habituado ainda à produção nacional autoral. O roteiro tem um bom desenvolvimento e consegue construir uma história envolvente e bem amarrada. Os desenhos são muito bonitos e valem a apreciação cuidadosa para o aproveitamento de cada detalhe. Pode parecer estranho uma análise sem pontos negativos, pelo menos alguns que mereçam ser citados. A verdade é que não consigo apontar algo negativo nessa obra belíssima. Não há zona de conforto nem para o roteiro da Ana Recalde, nem para a arte estilosa do Denis Mello. O mercado Brasileiro, e especialmente os leitores precisam olhar mais em volta e descobrir jóias como essas. Sua coleção vai ficar muito mais valiosa com aquisições como esta.

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