E se existisse um grupo de pessoas que o mundo temesse e odiasse? Algo como os mutantes da Marvel, uma população discriminada, vítima de racismo, e que ainda precisa lutar por espaço e respeito na sociedade? Pois estas pessoas existem. A Black Mask, uma pequena editora norte americana que publica excelentes títulos autorais, está lançando Black, sua nova hq com um cunho político que aborda o racismo. Criando um mundo onde só podem existir super heróis negros.black 001 - heróis negros

Escrita por Kwanza Ozajyefo e desenhada por Jamal Igle, a hq propõe contar a história de um grupo que recruta pessoas com habilidades super humanas. Tais habilidades só se manifestam em pessoas negras e antes que essas pessoas caiam nas mãos do governo, os recrutadores se encarregam de treiná-los.

É uma premissa bem simples e bastante repetitiva nas hqs. O que se destaca nessa série, é o fato dela oferecer estes superpoderes exclusivamente aos negros. Assim ela abre caminho para a representatividade negra, abordando alguns temas delicados. A primeira edição retrata a população jovem negra, especialmente nas periferias. Os críticos nos Estados Unidos se dividiram quanto à qualidade do roteiro, alguns se apegando ao fato dele não ser tão original, outros, com quem concordo, exaltando a necessidade de ampliação desse espaço.

A violência policial e o descaso com a juventude negra são o ponto de partida, trazendo um clima tenso e bem retratado pela arte de Igle. Os desenhos aquarelados em tons de cinza, oferecem uma atmosfera mais densa à hq. Um problema que percebi é que o roteiro falha um pouco na forma apressada de contar os fatos, não deixando espaço para um melhor desenvolvimento dos personagens. Para uma primeira edição a história já explica muito,  talvez numa tentativa de conquistar o/a  leitor/leitora mais rapidamente, uma vez que deve ser dificílimo competir com as grandes editoras. Fico na expectativa que estes temas sejam melhor abordados em um futuro próximo, quando a hq ocupar um espaço mais justo nas prateleiras.

 

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Apesar de ter apresentado um roteiro muito acelerado, que não chega ser um grande problema, a hq é tem uma boa proposta. A forma como os problemas referentes ao racismo são abordados, e a mistura com o universo de heróis pode ser bem sucedida. Colocar superpoderes como dom exclusivo de pessoas negras é uma inversão interessante da lógica racista que perdurou por muito tempo nas hqs. Basta lembrar que o primeiro herói negro a protagonizar uma hq surgiu apenas em 1972, enquanto o primeiro super-herói branco nasceu em 1936, 36 anos antes. E não se trata apenas de representar heróis negros, mas de contar uma boa história, com desenhos bonitos e bem expressivos, e um roteiro com boas premissas.

Alguém pode argumentar que heróis negros já possuem espaço nas grandes editoras, em desenhos animados e séries de tv. É importante lembrar que embora isso seja parcialmente verdade, há ainda muito protagonismo a ser conquistado pelos negros (as) e outros grupos marginalizados (as). Por isso vibrei quando abri essa edição e vi a frase de abertura:

“Num mundo que já os teme e os odeia, o que aconteceria se apenas pessoas negras possuíssem superpoderes?”

Talvez por que mesmo que eu não seja negro, mas faça parte de outra minoria, sendo gay, eu reconheço a importância de hqs como esta no mercado. Além de Black,  a Black Mask também publica Kim & Kim, uma hq protagonizada por caçadoras de recompensa transsexuais. É uma pena termos quase certeza que não veremos hqs como estas por aqui tão cedo.