Quando comprei Lucille, não imaginava que a leitura fosse me surpreender tanto, foi mais uma daquelas compras pra fechar o carrinho com frete grátis, por isso ela ficou lá na estante por uns três anos na pilha de leitura, aquela pilha que a gente não dá muita prioridade. Finalmente chegou o dia de tirar esse quadrinho do limbo.

Essa Graphic Novel é escrita e desenhada pelo francês Ludovic Debeurme, aparentemente você pode julgar a obra pelo seu traço simples e cartunesco mas, ao adentrar na narrativa, começa a perceber que a leveza dos traços minimalistas se encaixam perfeitamente com a narrativa densa e cheia de temas difíceis que exploram o lado humano das personagens.

A narrativa conta a história de dois jovens:

Lucille, uma adolescente desajustada e insegura, superprotegida pela mãe, sonha como toda garota de sua idade, em ser o estereótipo da mulher perfeita, magra e bonita, igual a sua boneca Linda, mas por sua baixa estima ela se acha feia e sem graça.
Atormentada por esses dilemas e dissabores da adolescência Lucille desenvolve anorexia e sente-se cada vez mais só.

Arthur é um jovem rebelde que tem transtorno obsessivo compulsivo (TOC) que o faz contar tudo ao seu redor desde os passos até os batimentos do coração, ele é bem problemático e carrega também o peso da herança paterna, obrigado a seguir no mesmo caminho que o pai: a profissão de pescador, o alcoolismo e depois de uma tragédia ter que assumir as obrigações pelo futuro da família.

Dois adolescentes com histórias tristes que após alguns acasos acabam se conhecendo e decidem fugir juntos dessa má sorte.

Nas mais de 500 páginas, Debeurme narra os anseios e medos dos dois nessa fuga motivada pelo desejo de liberdade e de se descobrirem na vida e no mundo. Numa viagem de trem sem rumo e com pouco dinheiro eles acabam parando num pequeno vilarejo Italiano, onde conhecem uma família para quem decidem trabalhar, mas as coisas não saem nada bem.

A descoberta da sexualidade, o primeiro amor, as relações sociais, a busca por sobrevivência, as responsabilidades e dilemas da vida adulta, são as bases que constroem essa narrativa.

A Graphic Novel ganhou os prêmios René Goscinny e da La Nouvelle Republique, além de destaque no Festival d’Angoulême no seu lançamento em 2006, na França. Aqui no Brasil a obra foi publicada pela Barba Negra estinto selo de quadrinhos da editora Leya, possui 550 páginas e formato 17,5 por 23,0 cm.

Como disse no início, Lucille foi um quadrinho que me surpreendeu muito, uma narrativa intensa e angustiante.

Infelizmente a editora não trouxe a continuação direta chamada Rénne, mas a leitura é muito interessante para quem quer fugir do eixo Mangá/Comics que enchem as bancas e lojas do país. Por sorte outras editoras como a Nemo e a Quadrinhos na Cia ainda apostam nessas publicações.

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