A cada ano os leitores brasileiros estão encontrando nas bancas e livrarias obras jamais pensadas no nosso mercado. Fruto do crescente sucesso dos filmes de heróis, a colonização nerd como diria o escritor Grant Morrison, possibilitou um grande numero de publicações de altíssima qualidade, principalmente aquelas fora do universo fantasioso da Marvel e DC. Ainda assim as duas principais editoras do mercado mainstream também trouxeram boas contribuições para o ano que passou. Finalmente reunimos nossa lista com os melhores quadrinhos de 2017. Lembrem-se que esta é uma lista pessoal pensada de acordo com as leituras do autores deste artigo (a seleção foi realizada por Louri Jr e Cezar Vasconcelos), então é claro que muita coisa pode ter ficado de fora, mas as indicações podem nortear boas leituras para muitos leitores que gostam de conferir as listinhas de verão para aproveitar o filé do mercado. Divirtam-se!

Lista de Lourinaldo Junior

1Thor – Panini Comics

Não só Thor agora é uma mulher, como o tom dado pelo roteirista Jason Aaron à série está coerente com a mudança. Para enfrentar o autoritarismo de Odin a hq transmite uma vibe mais subversiva com a própria heroína e a esposa do soberano de Asgard, Freija, questionando suas motivações patriarcais. Além disso Jane Foster, alterego da heroína, enfrenta o câncer de mama, e quando ela empunha o martelo Mjolnir, os efeitos da quimioterapia são anulados. Além de representar um dilema cruel, traz um drama comum ao universo feminino conferido mais humanidade à heroína, característica básica do Universo Marvel desde a era de prata.

2Capitão América Sam Wilson – Panini Comics

Um Capitão América negro, que defende imigrantes, e é “acusado” de comunista pelos americanos. Rompendo com o Governo americano e causando revolta do público na ficção, Sam Wilson enfrenta toda uma nação. Sendo fiel aos seus ideias, ele conseguiu causar incômodo até na imprensa americana do mundo real. O personagem reformulado pelas mãos do roteirista Nick Spencer, traz representatividade e atitude militante ao herói símbolo da América.

3Pantera Negra – Panini Comics

 

Um roteirista negro para um herói negro. Ta-Nehisi Coates (pronuncia-se Tánássi Coutes) constrói uma Wakanda cheia de intrigas políticas. Enfrentando os percalços de ser um rei, T’chala, o Pantera Negra, enfrenta revoltas e percebe que governar não é tão simples. No fim temos uma Wakanda rica em aspectos culturais e com personagens muito interessantes. Destaco o casal de lésbicas Ayo e Aneka que formam uma luta rebelde contra o governo central. Os diálogos com a rainha mãe Ramonda são um dos pontos altos do título bem como a representação da luta revolucionária muito bem construída. Além da representatividade temos uma série onde bem e mal estão bem difusos tornando a saga do herói mais realista e envolvente.

4Lanternas Verdes – Panini Comics

Embora a Marvel esteja dez passos à frente da DC em termos de diversidade entre seus protagonistas, a revista mensal Lanternas Verdes está fazendo merecido sucesso. Dois lanternas verdes defendem a Terra e terão que aprender a usar os novos poderes. Um deles é Simon Baz, muçulmano que recebeu os poderes na prisão de Guantánamo. Baz ainda sente o preconceito e carrega os estigmas que a população muçulmana enfrenta na terra do Tio Sam. A outra lanterna verde é Jessica Cruz, que sofre de síndrome do pânico. Além de ser um problema comum nos dias de hoje que aproxima a heroína de muitos leitores, é interessante saber que ela foi escolhida por um poder que funciona através da força de vontade. Ver a batalha interna de Jessica para fazer funcionar o seu anel energético torna a aventura dos heróis mais envolvente. O desenvolvimento da amizade entre os dois é outro fator importante da série.

5Meu Amigo Dahmer – Darkside

Uma das graphic novels mais relevantes que li em 2017. Narra uma parte da biografia do serial killer norte americano, Jeff Dahmer, pela ótica do próprio autor Derf Backderf, que estudou e conviveu próximo a ele nos tempos de escola em meados dos anos 70. O livro constrói um ambiente que me capturou do início ao fim. Derf consegue transmitir a atmosfera do tempo de sua adolescência retratando bem os anos 70, ainda mais com uma arte que lembra muito o movimento underground daquele tempo. Ele contrasta bem o quanto aquela época foi boa para sua turma enquanto foi triste e sombria para o protagonista. Nas palavras do próprio autor, a história traz o retrato de uma juventude destruída. É digno de nota o alto padrão gráfico do material tornando a hq ainda mais atraente durante a leitura.

6Chico Bento Arvorada – Panini Comics

O quadrinista Orlandeli criou um conto poético do personagem caipira mais famoso dos quadrinhos. Com simplicidade ele fala de afetos e memórias, respeito pela sabedoria popular representada por sua Vó Dita. Em Arvorada o autor consegue transmitir a importância dos valores familiares muitas vezes banalizados e deixados de lado pela juventude atual. Confira a review do site Anallógicos.

7Não Era você que eu esperava – Editora Nemo

O autor Fabien Toulmé narra com coragem seus preconceitos ao encarar a possibilidade de ter uma filha com síndrome de Down. Descrevendo sua rejeição inicial após o nascimento de Julia e a confirmação que tanto temia, ele mostra todo o processo de aceitação até desenvolver uma relação de amor sincero com a filha. Impressiona a sinceridade dele ao mostrar o quanto foi preconceituoso com a própria filha recém-nascida. Achei corajoso e ousado expor um momento tão difícil. Além disso a arte e o roteiro são extremante cuidadosos para tornar a história leve e agradável de acompanhar sem se perder a delicadeza da situação.

8Condado de Essex – Mino Editora

Jeff Lemire está em alta, e tudo que tem saído pelas mãos dele valeu a leitura. Nessa graphic novel com pompa de romance épico, Lemire trata da passagem do tempo e das gerações em conflito, mostrando o quanto nossas vidas e afetos estão sujeitos à viradas inesperadas. Com uma narrativa focada na solidão de seus personagens O Condado de Essex nos surpreende com os entrelaçamentos existentes entre os personagens ao longo do tempo, retratado em toda a história. É bonito, poético e uma daquelas obras que merecem espaço de muito respeito ao lado de grandes romances da nossa história.

9Amor é amor – Geektopia

Felizmente a editora Geektopia trouxe ao Brasil a antologia que reúne diversos artistas e personagens dos quadrinhos norte-americanos para homenagear as vítimas da boate Pulse, em Orlando que sofreu um ataque em 12 de junho de 2016 com 49 mortes. As histórias curtas de uma ou duas páginas trazem vários personagens já conhecidos dos quadrinhos, como Batman, Arlequina e Hera Venenosa  através de dezenas de artistas, dentre eles Grant Morrison, Gail Simone e Mark Millar. É uma obra muito importante que reforça a luta contra a LGBTfobia ainda mais num meio tão conservador e cheio de preconceitos como ainda é o universo dos quadrinhos.

10Inuyashiki – Planet manga (Panini)

O mangaka Hiroya Oku, autor do grande sucesso Gantz, está incomodado com o crescente preconceito e descaso dos jovens Japoneses com a população idosa. Então ele criou a história que cria um antagonismo entre um idoso desprezado pela sociedade e um jovem delinquente. Ambos ganham poderes alienígenas num estranho incidente. Apesar de parecer um tanto exagerada na forma como o velho Inuyashiki é tratado, a motivação está antenada com a nossa realidade e pode servir de reflexão para uma juventude que está cada vez menos preocupada com passar do tempo.

11Relançamento do ano: Akira – JBC

Um dos maiores clássicos dos quadrinhos mundiais é relançado no Brasil, com uma edição impecável. A história de jovens excepcionais em New Tokyo à vésperas das olimpíadas de 2020 não poderia ser um tema mais atual, mesmo para uma obra com seus trinta e três anos. Uma leitura ágil retratando perseguições de tirar o fôlego, Akira é mais uma obra que merece a mesma estante que o já citado Condado de Essex.

 Confira na página 2 a lista de Cézar Vasconconcelos