por Louri Jr.

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Algumas personagens femininas possuem uma trajetória difícil na DC comics, especialmente aquelas que nasceram como “versão para garotas” dos heróis já existentes. Supergirl é uma dessas, e ao longo das últimas décadas, foi vítima de decisões editoriais desastrosas que nunca conseguiram uma linguagem que se identificasse com um público específico. Como escrever sobre uma heroína adolescente (pelo menos na versão atual) num universo tão difícil e reacionário por vezes, como o universo nerd? Ainda que dominado por gigantes anabolizados explodindo testosterona, nos últimos anos o universo das comics americanas tem conseguido criar um espaço muito bem sucedido para as heroínas se comunicarem com as garotas, apesar de parecer óbvio que esse pode ser o público alvo de personagens femininas.

Parece que os editores relutaram durante muito tempo em olhar para outras direções e deixar de lado em alguns títulos os interesses do público masculino adulto. É importante lembrar que crianças e adolescentes lêem quadrinhos, garotas lêem quadrinhos, e que a produção de cultura infanto juvenil é um caminho para atrair novos leitores, sem excluí-los da cronologia oficial do universo compartilhado. Os adultos precisam exercitar sua inteligência para entender às vezes, as qualidades de um texto que não é direcionado para sua faixa etária.

Simbolizando o empoderamento e servindo de inspiração para as garotas nerds, sucessos como a Batgirl de Burnside (a fase da heroína escrita por Cameron Stewart, Brenden Fletcher, com desenhos de Babs Tarr em 2014),  Squirrel Girl e Ms. Marvel (ambas da Marvel) , mostraram um caminho que cria identidade com novos leitores e rejuvenesce a linha editorial. Este parece o caminho adotado por Steve Orlando (Midnighter) para a nova fase da Supergirl em Rebirth. Com o sucesso da serie da heroína na última temporada da tv americana, a DC vacilou em não criar o quanto antes uma série nos quadrinhos que se comunicasse utilizando a mesma linguagem adotada na tv. Supergirl: Rebirth mostra a que veio. Ela mira um ação mais imediata sem muitos rodeios e entregando rapidamente a proposta geral da série. Há um link com o passado da heroína em Argo City, e um dos possíveis vilões deste arco inicial estará relacionado com seu pai, Zor-El. Steve Orlando mostrou um ótimo trabalho em Midnighter, ainda inédito no Brasil, tratando uma temática ainda delicada nos quadrinhos como a homossexualidade do herói.

Em Supergirl o caminho adotado parece seguir o exemplo das hqs que estão fazendo sucesso com o público adolescente. Claramente nesta série, Supergirl assumirá o papel bem definido de heróina, e não abrirá espaço para muitos dilemas permitindo que ela esteja focada no mundo em sua volta. Kara foi mostrada como exemplo de otimismo e também coragem de encarar a nova trajetória que escolheu.

Provavelmente Supergirl tentará seguir o caminho adotado pela série, com um roteiro mais otimista. O deslize dessa edição ficou por conta das conexões muito forçadas como as coincidências conectando alguns personagens. Outro caminho que não me agradou muito nesse número, foi a insistência em trazer novos envolvimentos com kryptonianos para a vida de Kara. Seria uma boa colocar novos desafios na vida dela sem conectá-la mais uma vez com seu passado em Krypton. Seteve Orlando foi muito competente em Midnighter e tem uma visão muito descolada do lugar comum. Será interessante ver o que será construído durante sua passagem por essa revista.

Definitivamente Supergirl não tentará se comunicar com o tradicional fã de quadrinhos de heróis, parece que finalmente ela tentará trazer o público jovem para uma identificação maior com a heroína, procurando também conquistar aqueles que de repente desejem ir além da série de tv. Se conseguir, será uma boa jornada para a heroína que durante muito tempo não conseguiu ser algo além da prima do herói mais poderoso do universo. Espero que a presença de Superman na nova temporada da série de tv não estrague o momento dela. Os marmanjos já possuem espaço demais nas hqs.