Que tal voltarmos à idade das pedras e ver o que está acontecendo em Bedrock? A nova série The Flintstones, lançada ano passado como parte das novidades editoriais da DC comics, continua firme. Confirmando o que escrevi na review da primeira edição, a série traz histórias fechadas em cada edição e aborda temáticas críticas ao modelo capitalista da nossa sociedade ocidental.

 

O nascimento do consumo

O segundo número traz três questões importantes e que sustentam fortemente nossa sociedade. Começamos testemunhando, pelos olhos assustados de Fred, o surgimento da tv, e não temos aquele modelo clássico do desenho original, e sim, uma bela tela plana presa à parede da sala dos Rubbles. A abordagem da televisão na vida familiar não foi aprofundada nessa edição, algo que pode ainda ser tema de algum número futuro. Apenas algumas brincadeiras, mostrando como a nova sociedade primitiva ainda precisa aprender a fazer seus programas televisivos. A grande novidade que será anunciada na estréia do telejornal, onde eles “falam das coisas se tiverem imagens delas” é o surgimento da nova mania em Bedrock: comprar coisas das quais não se tem necessidade.

Comprinhas para relaxar, quem nunca?

O tema domina toda a edição sendo a principal paródia desse número. Comprar coisas desnecessárias, o hábito de se frequentar shoppings e gastar o dinheiro para buscar uma satisfação insaciável. Acompanhamos a família Flintstone gastando todo seu dinheiro em utensílios cuja necessidade é nula, e à medida que avançamos, percebemos o desespero de Fred em ganhar mais dinheiro para sustentar esse hábito. Para isso ele encara um novo emprego e vai vender futilidades de porta em porta.

O desenho original satirizava os hábitos e costumes modernos através de representações rudimentares e divertidas sem tecer uma crítica muito clara, se é que esta intenção realmente existia. Na hq, a DC resolveu trazer essa sociedade ainda em formação, e aos poucos os hábitos coletivos e a cultura na qual estamos vivendo vão conhecendo seus elementos básicos lentamente.

A construção da fé e o Deus invisível

Assim como o consumismo desenfreado, descrito pelo ancora do jornal como “pessoas comprando coisas que não precisam”, nesse número também temos os sacerdotes da cidade tentando apresentar aos seus “fiéis” uma imagem aceitável de seu deus.

Consumismo e religião. Dois temas complicados e difíceis, que Mark Russel, consegue tratar de forma simples, mas contundente. Por um lado há um questionamento da sensação de esvaziamento emocional alimentado pelo hábito de se recompensar através do consumo. Este questionamento é bem interessante quando um homem ao ser entrevistado no telejornal afirma que achou estranho esse negocio de acumular bens materiais, algo tão natural atualmente, especialmente para nós colecionadores, mas que no momento retratado na hq não existia ainda.

Contemplem o Deus Invisível, mas vamos chama-lo de Gerald por enquanto

No caso dos religiosos há uma necessidade dos líderes da igreja encontrarem uma representação aceitável de Deus, para que seus seguidores mantenham a confiança na sua religião. E enquanto eles recorrem ao consumo para tentar encontrar esse modelo as falhas são inevitáveis. Aparentemente a solução está na falta de explicações e a solução “invisível” soa como a resposta fácil para a fé.

Nostalgia com um toque crítico

O roteiro é divertido e tem certa sagacidade, os elementos clássicos da série da tv foram bem explorados nesse número. O título se tornou até certo ponto ousado em colocar numa hq de uma grande editora esse tipo de crítica, com uma linguagem que alcança um público amplo.

No final temos nostalgia, com uma repaginação interessante do universo dos Flintstones e uma abordagem divertida e critica. Esta combinação transforma a série em um ótimo título mensal. Seguindo este caminho a trazendo one-shots criativos como nos os dois primeiros números, a expectativa para os próximos é positiva. Ainda teremos temas interessantes a serem abordados como o casamento, homosexualidade e política. Enfim, é uma forma inteligente de se utilizar o rico universo do clássico desenho, para revermos, mesmo que de forma fantasiosa, as origens de nossa cultura por uma ótica mais questionadora.

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