Hiroya Oku, autor de Gantz, volta ao Brasil com Inuyashiki, série de ficção científica que explora uma premissa reunindo o sobrenatural com uma temática bem interessante sobe nossa sociedade contemporânea. A série está sendo publicada pela Panini.

O mangá que deverá ser bem mais curto que Gantz, com prováveis dez edições, traz no primeiro número um personagem solitário e triste. Vítima do preconceito de idade, Inuyashiki é um homem desprezado pelos próprios filhos, e em certo nível pela esposa. Um homem pacato que leva uma vida simples, e tenta oferecer o melhor para sua família. O tratamento frio e rude dos seus dois filhos e de sua esposa o colocam numa situação que pode logo de início sensibilizar o leitor. Rapidamente percebemos a dor e a solidão do frágil pai e marido que ao chegar aos 58 anos, já não se sente mais respeitado e amado. Além disso, ele tem uma aparência desgastada o que o faz parecer mais velho reforçando a idéia de que ele já é um incapaz.

Durante um passeio no parque, o protagonista sofre uma inesperado acidente, sendo atingido por alienígenas que, para reparar o estrago causado, acabam alterando drasticamente seu corpo. Aparentemente Inuyashiki escapa ileso do evento, inclusive se quer lembra o que aconteceu. Aos poucos ele vai percebendo as mudanças em seu corpo até que finalmente ele percebe que já não é mais o mesmo. No mesmo instante que ele sofreu o acidente com a nave espacial havia outra pessoa próxima que sofreu as mesmas consequências. O jovem Hiro Shishigami também teve seu corpo modificado e agora tem as mesmas habilidades que Inuyashiki. A diferença é que enquanto o protagonista decide usar suas novas habilidades para o salvar as pessoas, o jovem Shishigami pretende utilizá-los para o crime.

O tema central abordado na série é uma mensagem do autor contra o desprezo e a falta de valorização aos mais velhos, por parte da juventude de hoje. É uma tema delicado e importante, visto que hoje em dia percebemos uma valorização excessiva da juventude enquanto aparência e uma falta de consciência e respeito pelo processo do envelhecimento. Numa época em que fazemos de tudo para prolongar a juventude, e até tentamos adiar o fim dela para nos sentirmos mais vivos, questionar o valor da velhice é uma proposta bem vinda numa mídia que parece tão jovem e vigorosa como os mangás. Por outro lado, colocar o jovem como um vilão motivado pela delinquência é uma forma contundente de provocar o leitor e fazê-lo pensar sobre um ângulo diferente. É um duelo interessante que pode incomodar alguns e despertar através da alegoria do herói uma consciência maior para o respeito e a valorização da velhice.

Os desenhos são muito detalhados, e eu diria que estão bem mais refinados em comparação ao trabalho do autor em Gantz. Dá gosto de apreciar cada página, com a riqueza de cenários e especialmente as expressões muito bem trabalhadas, já que nosso protagonista é um homem que aparenta bem mais idade. Além de abordar o amadurecimento como algo a ser valorizado, parece que o autor não esquece que o leitor também está amadurecendo, e brinca inclusive com o fato de Gantz ser considerada, segundo o próprio Shishigami “um mangá velho de psicopatas”. É uma brincadeira com a repercussão de sua obra anterior, mas também, quem sabe, uma maneira de direcionar uma parcela da culpa pela falta de interesse da juventude por temas como a velhice e a responsabilidade da vida adulta, aos produtos da mídia que costumamos consumir.

O aoutor provoca os jovens criticando uma de suas maiores obras e talvez até alfinetando quem fala mal dela. Traz uma proposta que discute o passar do tempo, a velhice e o respeito que essas questões merecem. Coloca o jovem contra o velho, e tenta criar uma reflexão sobre o tema. Será que o resultado será esse? Os leitores mais jovens se verão no herói por opção Inuyahsiki ou no jovem vilão Shishigami? Espero que o desenrolar da série mostre que não há apenas juventude delinquente e que a culpa pela falta de valorização da velhice nos dias de hoje é uma influência que chega aos jovens através da própria mídia seja o cinema a tv ou as hqs que estão repletas de jovens perfeitos e cheios de vigor, verdade e músculos. Seria bom que ao colocar um velho frágil como super-herói esse mangá consiga alcançar a desconstrução de um preconceito que inevitavelmente nos acometerá no futuro.