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Pra mim a melhor criação da Hanna-Barbera foi Os Flintstones. Reconheço que hoje temos muitos desenhos excelentes com ótimas abordagens a temáticas jamais imaginadas para as décadas passadas, mas devo admitir que no caso de Os Flintstones há em mim uma forte  nostalgia. No movimento do Rebirth, que se iniciou em Junho na DC Comics, algumas inovações na linha de quadrinhos da Hanna-Barbera tambem entraram na lista de lançamentos. Tivemos Scooby Apocalypse, a versão  pós-apocalíptica da Corrida Maluca e o grande crossover de Infinity Quest. O lançamento do Flintstones foi o último e o mais esperado por mim. Depois da grata surpresa de Scooby Apocalypse que acrescentou conceitos interessantes à turma do mistério, fiquei realmente ansioso para ver o que a equipe formada por  Mark Russell (roteiro), Steve Pugh (desenhos) e Chris Chuckry (cores) havia reservado para esse “Rebirth” da idade da pedra.

O roteiro de Mark Russell tenta criar algumas críticas interessantes a uma sociedade fictícia de 100.000 anos atrás, que já começava a viver as mazelas capitalistas e também já era capaz de criar muitos dos problemas que a consumiriam.

A história de estréia da série deu uma dica de que a abordagem, pelo menos inicial, será mais episódica, sem um longo arco inicial. Basicamente temos dois plots nesse número. Acompanhamos Fred na sua relação com o trabalho e Wilma tentando realizar um sonho de expor suas pinturas num renomado museu da cidade de Bedrock. O roteiro de Mark Russell tenta criar algumas críticas interessantes a uma sociedade fictícia de 100.000 anos atrás, que já começava a viver as mazelas capitalistas e também já era capaz de criar muitos dos problemas que a consumiriam. O chefe de Fred, Mr Slate, não foge muito do caráter clássico do desenho, a representação do capitalista selvagem e impiedoso com seus empregados. Nessa versão o roteiro permite uma visão mais clara do papel opressor do patrão, acrescentando à sua personalidade a imagem de um babaca mimado e insensível que gosta de usar sua posição para fazer os empregados de gato e sapato. Ao acrescentar cro-magnons no roteiro, que foram contratados para trabalhar para a empresa de Mr. Slate, o escritor joga a possibilidade interessante de mostrar neste universo a coexistência entre o homo sapiens e seus “concorrentes” evolutivos, e através da representação  da cada espécie, fica claro que o homo sapiens é um exemplo complexo e difícil de superar, baseando-se na doentia sociedade que vai se erguendo ao seu redor.

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Fred e Barney lutando na guerra paleolítica

Há menções a uma Guerra Paleolítica, da qual Fred e Barney participaram, sugerindo a possibilidade de um bom desenvolvimento em edições futuras. A família Rubble aliás  aparece muito pouco nessa edição de estréia, apenas alguns quadros com a participação de Barney e Betty. Há também um momento no fim da edição em que Wilma fala sobre a história de sua tribo, que além de ser um dos pontos altos da edição, joga também mais uma possibilidade interessante ao sugerir que a vida em Bedrock coexiste com um estilo ainda primitivo dos homo sapiens, tornando este universo mais rico.

 

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O passado de Wilma, ponto forte da edição.

Os conceitos de utensílios e objetos originais do desenho, apesar de gerar um certo desconforto por colocar os animais em papéis bem questionáveis, ainda conserva, o humor e a acidez dos mesmos nos comentários sobre o estilo de vida dos humanos. A representação de Bedrock, no mapa de abertura tem algumas sacada legais, como o “Outback Snakehouse”, a “Caverna de Platão”  e a boate “Homo Erectus”.

A arte de Steve Pugh é bonita, seguindo os padrões das HQs da DC sem optar pelo estilo cartunesco original do desenho da tv. Confere um tom mais sério e realista e que se adequa bem ao roteiro. Há uma representação muito padronizada com erotização dos corpos, que não dá pra passar em branco. Alguma coisa está errada quando fico excitado ao ver Fred Flintstone em roupas de banho? Ao vermos Fred e Wilma na pool party do chefe, parece que estamos vendo mais um casal fitness dando close na idade da pedra.

Alguma coisa está errada quando fico excitado ao ver Fred Flintstone em roupas de banho?

 

A estréia de Os Flintstones, trouxe boas ideias, semeia propostas interessantes, mas não apresenta um roteiro muito coeso, e que se encaixe numa proposta mais madura para essa versão dos personagens. Mesmo assim, especialmente para os fãs, é interessante acompanhar um ponto de vista moderno, de uma representações da sociedade atual vivendo na pré-história (proposta sempre existente desde a origem do desenho). Torço para que as histórias paralelas apresentados nesse número sejam exploradas e aí sim teremos uma ótima série dos Flintstones nos quadrinhos. Até lá, e com alguns ajustes de roteiro, ela será garantia de boa diversão para fãs e leitores novatos, provando que ainda hoje a família da idade da pedra continua atual e antenada com o nosso tempo.

Veja a galeria de capas: