A Image Comics lançou, semana passada (01/03) mais uma série autoral, Royal City, escrita e desenhada por Jeff Lemire. A hq se passa na cidade título e trata de uma família que tem alguma história misteriosa a ser revelada ao longo dos próximos números.

Nessa edição de estreia, conhecemos um pouco de cada membro da família Pike, a começar pelo casal Peter e Patti. Na sequencia conhecemos seus filhos Tommy, Pat, Tara e Richard. Eles são apresentados em situações comuns e de certa maneira até banais. Através dessas cenas somos apresentados a alguns arquétipos facilmente reconhecíveis nesse tipo de drama. Tem o filho ocupado, que mora longe, e pouco se relaciona com a família, mas de alguma forma mantém um vínculo especial com algum membro dela. Tem a filha progressista, que pretende mudar os ares da cidade através de um empreendimento imobiliário que desafia as tradições do local, casada com um marido frustrado por não estar a altura do sucesso da esposa. O filho rebelde, incompreendido e deixado de lado pela família que já não acredita mais nele. O pai doente que vai mobilizar todos em volta de si criando o plot inicial. Por fim, o filho amado por todos, o ente que de alguma maneira consegue ser o elo que une a família já fragmentada.

Mais uma vez a Image Comics abre espaço para essa formidável talento que merece ser lido e apreciado por nos entregar trabalhos tão distintos e tão bem pensados.

A história logo no início lembra um pouco a série Bloodline, da Netflix, drama familiar que gira em torno de um segredo que atinge a todos os membros. Apesar desses padrões típicos de histórias assim, a hq consegue trazer um ar pouco explorado para a linguagem dos quadrinhos, em se tratando do mainstrean americano. Lemire prendeu minha atenção nesse número de estreia através de dois recursos interessantes:

1) Os diálogos, que através das simplicidade de situações cotidianas geraram uma empatia e uma identificação imediata. Fazendo inclusive que eu tivesse uma percepção clara do caráter e dos sentimentos de cada personagem;
2) A inserção na trama de um elemento misterioso, que nem de longe pretende ser um plot twist, uma vez que a gente já consegue perceber na metade da história o que está acontecendo.

Ao longo de 42 páginas, Lemire desenvolve um universo e seus personagens nos convidando a participar da história e desenvolver interesse a respeito do que se pretende contar. Claramente, o escritor Pat, um dos filhos, será um dos personagens centrais, que deverá nos apresentar uma ligação especial com seu irmão Tommy. Este, por sua vez, o mais enigmático de todos, apresentado nesse número inicial em diferentes interpretações a depender do olhar de cada membro de sua família. Se por um lado o mistério que encerra a edição é entregue aos poucos (talvez até de propósito), por outro lado, prestem atenção nos recordatórios desde o início e uma surpresa no epílogo vai evidenciar como o roteirista consegue montar bem sua história, sem nos entregar exatamente tudo. Quando pensei que havia matado a charada, a verdadeira surpresa ficou para a última página, que na verdade já é um extra.

A arte continua agradável como vimos em Sweet Tooth, da Vertigo e O Soldador Subaquático, publicada aqui no Brasil pela Mino. O problema, na minha opinião, é que ele tem um traço meio repetitivo, apesar de muito bonito, que não consegue criar feições diferentes. Um problema pequeno diante do conjunto obtido.

Jeff Lemire tem se destacado por trabalhos altamente recomendados como Black Hammer, Descender e os já citados Sweet Tooth e O soldador Subaquático. Mais uma vez a Image Comics abre espaço para essa formidável talento que merece ser lido e apreciado por nos entregar trabalhos tão distintos e tão bem pensados. Royal City é uma série que promete contar uma história emocionante, vale a pena ficar de olho e acompanhar.

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