No passado em uma era pré super-heróis, existiam publicações chamadas de “Pulps” que possuíam esse nome por serem feitas num papel barato a partir de polpa de celulose. Pulp, revista Pulp ou Pulp Fiction (foi daqui que Tarantino tirou o nome para seu filme) eram nomes genéricos para se referir a contos e quadrinhos publicados no início do século XX. Essas revistas geralmente eram dedicadas a histórias noir, mas também de fantasia, ficção científica e aventuras nas selvas africanas .

Personagens famosos da cultura Pop como Zorro, Tarzan e John Carter surgiram em revistas pulp. Ao mesmo tempo, autores consagrados como Isaac Asimov começaram sua carreira nos Pulps que eram considerados até então uma subcategoria da literatura. Com o tempo os pulps perderam seu espaço e ficaram à sombra do boom das editoras com as publicações dos heróis encapuzados, esse período ficou conhecido como a era de ouro dos quadrinhos.

Capas de algumas Pulps publicados naquela época
Capas de revistas Pulp publicados naquela época

Agora e se os heróis como os conhecemos hoje nunca tivessem existido, como seria um herói contemporâneo baseado no estilo Pulp daquela época?
Partindo desse ponto Alan Moore idealizou um resgate desse gênero esquecido no limbo e em 1999 criou Tom Strong. Não sei se o intuito foi esse mas Tom Strong é considerado uma grande homenagem do autor aos Pulps, ele idealizou um conceito para o personagem que compilasse boa parte do que era visto naquela época: uma mistura de aventureiro, cientista, policial, detetive, explorador. Publicada inicialmente pelo selo America’s Best Comics, Tom Strong traz várias histórias fechadas cheias de ação e aventura em um mundo super intrigante que tem como palco principal a cidade de Millennium City.

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Capa da primeira edição da Panini

A série começou a ser publicada pela Panini esse ano no selo Vertigo e o primeiro encadernado Tom Strong: A Origem traz um compilado das sete primeiras histórias.

O interessante em Tom Strong é que já no início, Moore faz um prefácio que resume os primeiros cem anos de aventura do personagem principal, pulando de cara aquela velha formula de introdução arrastada pra contar as origens do indivíduo até chegar na idade adulta (no prefácio você descobre como foi tudo isso). Em seguida, já começamos o quadrinho com o personagem no auge de suas aventuras.

É aqui que começa a brincadeira, no decorrer da leitura você percebe um grande artifício do Alan Moore, o fato de ter usado o prefácio pra contar boa parte da vida do personagem permite que ele, durante as histórias, revisite esse passa do personagem a hora que quiser. É exatamente esse o ponto forte da narrativa, essa não linearidade e liberdade temporal traz muitas possibilidades para as histórias. Você pode estar lendo uma história que se passa no presente do personagem, como em seguida saltar cinquenta anos no passado pra contar algum feito grandioso, ou mesmo contar como ele conheceu algum determinado personagem seja amigo ou vilão.

Tudo isso cria uma atmosfera de mistério que te deixa curioso pra saber o que mais poderia ter acontecido nessas aventuras passadas. Vale lembrar que Tom Strong não é um personagem solitário, ele conta com diversos coadjuvantes de igual carisma que estão sempre juntos dele dando suporte em suas aventuras. Fazem pate do universo do personagem sua família, a esposa Dhalua e a filha Tesla, Pneuman um robô mordomo construído pelo seu pai e Rei Salomão, um gorila com características humanas e inteligencia super desenvolvida, seu arqui-inimigo é o vilão cientista Paul Saveen (que é seu meio-irmão).

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A arte fica por conta de Chis Sprouse e Alan Gordon, mas vários artistas convidados passam pela revista. Nesse primeiro encadernado da Panini Tom Strong passa pelas mãos de Arthur Adams (Longshot, Authority), Gary Frank(Batman Terra Um, Superman: Origem Secreta), Dave Gibbons (Watchmen) e Jerry Ordway (Shazan, A Morte do Superman).

Tom Strong é o tipo de quadrinho que vale uma lida, não só por ser uma criação do Alan Moore (isso já seria o suficiente), ou por ter sido um sucesso de crítica e público vencedor de alguns prêmios Eisner de melhor edição,  escritor e  colorização. Talvez muita gente não se agrade dessa atmosfera das aventuras Pulp que o Moore fez questão de levar bem ao pé da letra na hora de criar histórias curtas que não possuem necessariamente ligação umas com as outras. Nesse quesito sua originalidade e criatividade são indiscutíveis. Muita ação, aparatos tecnológicos, amigos incríveis, vilões esquisitos e situações das mais absurdas fazem de Tom Strong um quadrinho único. Até agora a Panini lançou três encadernados de um total de onze, espero que saia tudo por aqui. Fica a dica!