5614041-trees-9Trees é uma série que nada contra a corrente mercadológica das hqs. Especialmente numa correnteza direcionada pelo padrão Marvel/Dc que recorre a fórmulas truncadas e repetitivas. Cabe à Image comics quebrar essa lógica e abrir espaço, a narrativas originais e comandadas por seus autores. Trees poderia não ter sobrevivido o suficiente para atingir a edição 14 se não trouxesse na capa a assinatura de Warren Ellis, creio eu. Ela ousa especialmente em oferecer mais perguntas que respostas ao longo dessas 14 edições, tornando a narrativa lenta, exigindo paciência e reflexão dos leitores. E o clima de mistério vai se tornando cada vez mais tenso, sem a pressa em se fechar arcos narrativos envolvidos nesse suspense.

A série mostra o mundo sob uma aparente invasão alienígena (ênfase no termo “aparente”, por que nem sabemos ao certo se é realmente uma invasão de alienígenas que ocorre na série). As árvores do título, são referência às enormes colunas que se instalaram repentinamente em diferentes cidades do planeta permanecendo silenciosas por dez anos até o momento. Obviamente a presença das árvores causou enormes mudanças na população mundial, especialmente nas cidades que receberam os tais visitantes. No primeiro volume, que reuniu as edições 1 a 8, acompanhamos as histórias de alguns personagens até agora sem aparente envolvimento entre si. Neste segundo volume, a história é focada em dois plots, um do recém-eleito prefeito de Nova York, e o outro da bióloga Dra. Creasy.

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Só para você ter uma ideia de como Wellis não está com pressa em nos contar os fatos, não temos durante todo o primeiro volume, qualquer menção a como as árvores chegaram ao planeta. Apenas na edição 9 temos um flashback mostrando como isto aconteceu na cidade de Nova York. E isto é tudo o que temos até o momento sobre o fato. Mais uma vez a série se preocupará apenas em nos mostrar os personagens em suas tramas. No caso do prefeito, há um envolvimento com milícias formadas após o caos instalado pela chegada da árvore, e todo esse plot é envolvido em negociatas políticas e brigas por territórios. Uma tentativa do novo prefeito em garantir total controle sobre sua cidade. Já a dra. Creasy está mais envolvida com os mistérios da suposta invasão. Este é o lado da série que nos coloca mais próximos das tentativas de desvendar as dúvidas a respeito das árvores, porém estas dúvidas vão crescendo quando percebemos que tudo que se precisa saber a respeito pode ser fruto de manipulações do governo, numa tentativa de transmitir mais segurança à população. No final desta etapa vemos que não há grandes avanços. E mais um volume de Trees se encerra, completando 14 edições, sem nos dar respostas sobre o mistério.

Trees não quer nos dar de imediato qualquer explicação sobre a anomalia que caracteriza o mundo em que a hq é narrada. Temos várias histórias sendo apresentadas, que no fim das contas focam nas relações que as pessoas desenvolveram, para se adaptar a uma situação desconhecida e perturbadora. É mais sobre a capacidade de adaptação que podemos desenvolver em mudanças como essas.

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Fomos apresentados a vários personagens até agora, acompanhamos suas vidas e seus dramas, e vimos que mesmo com um grande evento acontecendo em volta, as vidas continuam. Aprendemos a gostar de alguns personagens e somos forçados a aceitar a partida de alguns deles. De repente me peguei mais envolvido com essas pequenas narrativas sem conexão mas que retratam muito bem nossa realidade. O mistério das árvores não é abandonado. Este é o lado especulativo da série. Ela exige paciência, e a cada edição lida é necessário um tempo para pensar nos fatos e pistas entregues. De um modo geral, este segundo volume é inferior ao primeiro. Ele nos apresenta menos personagens, e me parece que o roteiro ficou um pouco monótono, sem chegar ao ponto de comprometer seriamente a qualidade final.

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Os desenhos de Jason Howard são vibrantes, transmitem movimento, com utilização de cores que imprimem um realismo agradável nas páginas. O pessimismo e o suspense ficam mais evidentes pelo tipo de traço mais denso, com uma arte final rabiscada, as cores ajudam a suavizar e dar mais vitalidade aos quadros.

“Eu diria que Trees é uma história pós-apocalíptica despida da fantasia e com raízes fincadas na realidade, tornando-se mais assustadora por parecer tão possível de acontecer.”

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Trees é uma série de narrativa lenta, séria, às vezes pesada e muito misteriosa. Ela não traz uma grande aventura contada em tom frenético. Para aqueles que gostam de ler e passar algumas horas pensando, debatendo e buscando mais informações a respeito, Trees é a série ideal. Talvez ela até seja uma grande aventura. Mas esta aventura tem um tom mais realista. Ela nos entrega situações reais numa realidade onde as árvores podem ser qualquer problema capaz de afetar o mundo, seja uma invasão alienígena, seja uma guerra ou qualquer outra mudança de paradigma que possamos enfrentar coletivamente. Eu diria que Trees é uma história pós-apocalíptica despida da fantasia e com raízes fincadas na realidade, tornando-se mais assustadora por parecer tão possível de acontecer.

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Saiba Mais sobre o volume 1 de Trees aqui