E quem nunca quis seguir os passos do seu ídolo de nanquim?

Ser um herói nas hqs sempre exigiu origens dramáticas, poderes que surgem como fardos a serem carregados pelos personagens e claro… grandes responsabilidades. Ler quadrinhos nos inspira, o herói clássico traz o melhor do humano, e quem não quer ser a representação do ser humano justo e perfeito? Wander, o protagonista criado pelo recifense Luciano Félix em sua graphic novel, é a representação fiel do típico leitor de quadrinhos. E ele tem atitude ao decidir se tornar um herói. Mas o que motiva o jovem Wander a ser um herói? Sem um passado trágico e qualquer acidente nuclear que o transforme num superpoderoso, ele apenas decide fazer justiça nas ruas. Wander é um herói influenciado pelo heroísmo de tantos outros que assistiu e leu. Nosso protagonista decide ser herói porque quer, sem mais explicações herói porque sim e ponto final. E assim surge o Batmorcego, num arroubo de criativida e e deixando bem claras as suas influências.

Com uma pegada bem humorada, Luciano constrói um personagem com motivações muito claras tornando fácil a identificação com o leitor. Um personagem muito representativo do jovem nerd fã de hqs, que carrega uma certa ingenuidade, a ponto de se tornar o justiceiro mascarado que sempre sonhou ser. Algumas semelhanças com o Dave, o protagonista de Kick-ass podem ser percebidas nas motivações do herói, mas que fanboy nunca sonhou em ser igual ao seu herói favorito?

Construindo um universo bem estruturado de personagens ao redor de Wander, a graphic novel consegue oferecer uma leitura imersiva e com densidade no roteiro suficiente para que os personagens ganhem nosso imaginário sem muita dificuldade. Tem a repórter mal sucedida Adriana Pasttel que cobrirá as aventuras do herói em busca do sucesso profissional, o atrapalhado delegado Bigass primo do prefeito Zinullo e o essencial Mestre Yakissoba. E tudo acontecendo na cidade de FicCitia, cheia de homenagens aos mestres dos quadrinhos em suas ruas.

Se você tem receio pelos quadrinhos de humor, não há motivos pra deixar esse de lado, apesar das piadas, que não são exageradas e com ótimo timming, em Wander o roteiro é muito bem elaborado. Ao mesmo tempo que brinca com o absurdo de um homem que quer ser super-herói, Luciano Félix consegue trazer uma certa credibilidade às situações, tornando a jornada (atenção à esta palavra ao ler o gibi) do herói divertida e envolvente. Cheio de referências, muitas das quais só reconheci com a ajuda do próprio autor, essa hq é uma diversão que não se resume uma leitura linear. Tentar identificar, ou reconhecer casualmente essas referências nos desenhos é um bônus muito prazeroso.

Os desenhos de Luciano, tem um traço que denunciam sua vertente cômica, com um estilo que flerta com a caricatura. Os traços na arte em preto-e-branco, são detalhados, longe do minimalismo, e com uso de sombreamento que enriquecem a impressão sem cores.

Em suas quase cem páginas de história, a hq conta a origem do nosso herói em três capítulos e traz um “interlúdio deslocado” segundo o autor, em dois capítulos. Por sinal esses dois capítulos finais são uma história quase à parte mas que se encaixa tão bem nos capítulos principais, que não deixa dúvidas do esmero do autor na construção da obra.

Wander, Herói porque sim, é um raro exemplo da obra nacional em quadrinhos, que traz uma narrativa tão bem trabalhada, e que foge do autobiográfico (ou talvez não?). Não é uma história preguiçosa. Percebe-se que escrevendo a saga do herói noturno da cidade de FicCitia, Luciano não quis ficar em uma zona de conforto e pôs no papel todo o desejo nerd de combater o mal fantasiado. Trazendo elementos divertidos dessa e de outras culturas do universo pop, difícil também não identificar um pouco de nossa cultura recifense mas, sem muito bairrismo. Ler essa hq foi uma experiência simples e cheia de diversão e surpresas, vale muito a pena tê-la na coleção.